02/01/2009

Maria Luiza Paixão

Essa é uma das típicas histórias de amor impossível que estamos acostumados a ver nas telas do cinema ou em novelas. Prometo que serei breve.
Maria Luiza era irmã de meu bisavô Luiz, e tinha mais dois irmãos, meus tios-bisavós Mário e José; única filha mulher do casal José Ferreira da Paixão e Etelvina Alves (meus tataravós), e tia de minha avó Myrian (fonte da maioria dos relatos).
Sua história começou no momento em que se apaixonou por um rapaz chamado Roberto. Não se sabe o motivo ao certo, mas as famílias eram contra o namoro.
Imagino que tenham se falado pouco já que, dentro das circunstâncias de tal época, era quase impossível que uma jovem passasse grande parte de seu tempo na companhia de um rapaz, ainda mais se ambas famílias fossem contra o relacionamento. Apesar de tudo, segundo minha avó, conforme contaram a ela, jamais existira um caso de amor tão forte e incondicional dentro de nossa família, algo inexplicável, uma paixão cinematográfica, uma "saudável" obsessão. Um sentimento forte e acolhedor, que alimentava o coração de sua tia, até o momento em que fora cruelmente proibido.
Os dois se apaixonaram perdidamente em questão de semanas, mas Roberto teve que ir para o Rio de Janeiro por um motivo esquecido com o passar do tempo, largado junto às cinzas do infeliz romance. Talvez o motivo de sua ida tenha sido a desaprovação por parte da família de minha tia-bisavó, a pressão contrária era muito grande. Ambos lutaram por esse amor durante um certo tempo, até o momento em que o drama tornara-se algo irracional e decidiram render-se às vontades das famílias.
Luiza passou o resto de sua vida apoiada em lembranças, vivendo seus dias rotineiros, estando sem rumo, engolindo durante o dia-a-dia a amargura do desamor que provara ao ser deixada. Não se tornara uma mulher amarga, muito pelo contrário, continuou sendo doce a amável com as sobrinhas, que eram as parentes mais próximas do sentimento maternal que tentava apagar. Após um longo tempo, Maria Luiza, ainda sem esquecê-lo, ficou sabendo que ele havia se casado, e que sua mulher havia morrido durante o primeiro parto. Logo depois, chegou a notícia de que após a morte de sua mulher, Roberto havia cometido suicídio.
Remoendo-se em seu sofrimento, Luiza decidiu deixar o orgulho de lado e dedicar-se ao que havia restado do maior e único amor que um dia tivera, já sem a intervenção de sua família. Com profunda dedicação e respeito, organizou uma série de missas com cantos gregorianos em sua homenagem, e não mais se apaixonou, nem ao menos se casou. Dedicou-se o resto de sua vida às crianças da família, que por crueldade do destino, não eram seus filhos.

Por volta de seus quarenta anos, em uma noite em que minha avó, ainda criança, passava férias em sua casa, Maria Luiza sofreu um derrame e faleceu. Antes de ser tirada o último vestígio de vitalidade e os últimos sentimentos dóceis de seu coração, ouviu-se um barulho, definido como o 'ronco da morte' por minha avó, que com apenas cinco anos, correu para avisar seus pais. Quando o casal entrou no quarto, já era tarde.
Fora o segundo contato que minha avó, Myrian, tivera com a morte. Algo traumatizante, uma vez que, de todas suas sobrinhas, era certamente a mais apegada com a irmã de seu pai.
Pode-se dizer que o trauma da perda foi superado, mas as lembranças de cada detalhe de sua história foram guardadas até hoje. Tanto que posso escrevê-las, usando-as como fonte.
Talvez Roberto nem soubesse da paixão que continuou sendo cultivada ano após ano por Maria Luiza. Ressalto então a melhor definição poética das histórias de amor, feita por Vinícius de Moraes: "... E todo grande amor só é bem grande se for triste!"

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"Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza"
Luiza - Tom Jobim.

5 comentários:

Luiz Calcagno disse...

Minha Avó, Maria Rosa, teria dito que Maria Luiza estava encafifada por Roberto, isto é, enfiou na cabeça e não tirou mais. Bela e triste história. Uma coincidência? O nome de minha mãe é Maria Luiza. Feliz Ano Novo! Abraço

Malu Paixão disse...

Sou grande fã desse nome. Meu nome foi baseado no dela, por ser a tia tão querida de minha avó, minha mãe achou legal homenageá-la, além de gostar de nomes simples e curtos!
Adoro Maria Luiza, assim como Luiz, nome também de meu bisavô, de meu tio-avô preferido, de meu padrasto, enfim, e de alguns amigos blogueiros hahahaha
bjoo

Vieira Calado disse...

As fotografias (visuais e escritas) do passado, são sempre enternecedoras.

Cumprimentos daqui

Selina Kyle disse...

Menina, que delicia de blog...fiquei encantada, vc é muito criativa.
Bjs!

Anônimo disse...

Oi, Malu, sou primo de sua avo e filho do José irmão de seu bisavó Luís. Os nomes corretos eram José Ferreira Da paixao filho e Etelvina Alves Pereira Guerra. Tiveram 5 filhos: Maria Luísa, José,Mário, Luís e Paulo. O nome correto do meu pai e José Guerra da Paixao