20/05/2011

Bodas de Ouro: Fausto e Myrian


Há exatamente 50 anos acontecia o casamento que deu origem a todas as histórias que hoje tenho o prazer de repassar às pessoas que amo.
Confesso que não sei exatamente como começar a falar sobre o orgulho que sinto ao ver quem meus avós foram um dos poucos casais que em meio século de convivência, tiveram pouquíssimos momentos de desentendimento.


Carrego comigo muitas lembranças de muitos momentos que passei com essas pessoas admiráveis, que hoje completam exatamente 50 anos de casamento e que, devo dizer, durante a infância foram como verdadeiros pais para mim. O pouco que sei, na teoria, sobre relacionamento, posso dizer que tirei da convivência com esse casal modelo, que tem como base três importantes pontos a ressaltar sobre "o que é conviver BEM"... confiança, respeito e admiração.




Confundo-me toda nas palavras quando vou falar deles. Não é a primeira vez. É difícil controlar um turbilhão de emoções diante de história tão linda. Mil coisas me vêm à cabeça, mil imagens, mil situações, mas só posso dizer que, nenhum discurso no mundo substitui a cena que sempre levarei guardada comigo das duas pessoas mais lindas e unidas que já conheci, dançando pelo salão, como se estivessem nos anos 50; independente da época em que estivéssemos. É essa a imagem que guardo de meus avós... as pessoas doces e românticas dos anos dourados que participavam de concursos de danças e caminhavam de mãos dadas em volta do coreto da praça. Ela, a jovem de 14 anos com seu primeiro e único amor, para toda vida. Ele, o rapaz trabalhador, de família pobre, que lutou para ficar eternamente ao lado de sua almejada princesinha. E assim venceram juntos.


E hoje, após 50 anos de união e resultado desse "conto de fadas" (por que não?), estou aqui para eternizar cada ensinamento incrível que traduzem os olhares dessas pessoas lindas, simples e eternas.
Amo vocês meus avós lindíssimos, eternamente! ♥

04/05/2011

Zé Baiano

Gostaria de deixar aqui registrada apenas uma apresentação breve de uma figura marcante da minha infância que, apesar de não ter o mesmo sangue, pode ser considerado da família. José Rodrigues do Monte, ou "Zé Baiano", como era conhecido pelos amigos foi uma das únicas pessoas com que tive o contato e nunca, repito: NUNCA presenciei em um momento de tensão, reflexão que fosse! Estava sempre sorrindo!
Zé Baiano e Arlete, sua esposa, frequentavam o mesmo encontro de casais da Igreja que meus avós Fausto e Myrian frequentavam. Minha avó tocava violão nas missas realizadas nos encontros e tanto o Zé Baiano quanto a Arlete trabalhavam na cozinha. Cada casal ajudava como podia, exercendo a função que sabia. Até então uma das amizades mais puras e grandiosas que já tive o prazer de presenciar ainda não havia começado.

Em um certo dia, uma amiga de minha avó foi chamá-la pois havia um homem trabalhando na cozinha que tinha muita vontade de ouví-la tocar violão, já que todos os casais faziam uma grande propaganda de sua voz rouca e seu violão intimista. Minha avó foi até lá, chegou naquela cozinha enorme e disse "Quem pediu pra eu vir aqui?"; e um rapaz humilde, tímido, com um jeito meio quietão se manifestou e foi até ela. Minha avó completou "Que música você quer que eu toque?" e ele, sem ao menos pensar, pediu: "Romaria".
E minha avó enfim começou... "O meu pai foi peão, minha mãe solidão..."
Aí nasceu a amizade entre os dois casais, que durou anos e anos, sem interesse algum.

Zé Baiano era a mais pura representação da doçura. Operário, trabalhador, sempre sorridente. Era tanta alegria que chegava a irritar. Sim, eu me irritava, talvez por ter sido uma criança com uma pitada de amarguice a mais, enfim...

Minha avó me contou que a turma deles começou em uma determinada época a deixar transparecer o veneno que todo grupo social tem, e começaram a ver com outros olhos essa grande amizade da minha avó com o Zé Baiano. Gente má ve maldade em tudo, nada de assustador até então. Minha avó chamou meu avô e a esposa dele para conversarem, os quatro, sobre o assunto e, tamanha a inocência do amigo, ele ainda demorou para entender a questão. Foi o último a perceber a maldade da situação e ainda assim não acreditou, e deu risada.

Ele justificava-se o tempo inteiro com o seguinte argumento: "Myrian, eu sei que as pessoas falam que é estranho eu ser muito seu fã, mas é que no primeiro momento em que te vi me lemrei de uma professorinha muito querida que eu tinha lá no Ceará." Mostrando uma inocência ainda maior.

Era certamente uma pessoa iluminada. Talvez iluminada demais para esse mundo. Quando eu tinha por volta de meus sete ou oito anos de idade me lembro de estar sentada na escada de madeira da casa da minha avó quando ela e minha mãe me contaram. Ele havia ficado trabalhando até um pouquinho mais tarde no dia anterior e falou ao outro funcionário que fecharia a fábrica, para que o colega fosse embora descansar. Como estava sozinho, ninguém pode ajudá-lo quando a camisa enroscou na máquina em que estava trabalhando. Devido ao tamanho da máquina e sua idade avançada não aguentou. Faleceu e ficamos sabendo naquele mesmo dia.

A notícia saiu no jornal local, apareceu na mídia impressa e foi muito comentada. Lembro-me da minha avó conseguir contar a maior parte da história para mim, pois minha mãe chorava muito. O sofrimento da minha avó era aparente, estava reprimido, mas era presente. Ela não chora. Mas poucas vezes vi minha avó numa fossa tão grande quanto naquela época. Naquele mesmo dia fui para a rede de balanço, na varanda e chorei.
Foi a primeira vez em que me dei conta de que as pessoas vão realmente embora.

Vi poucas vezes a viúva depois disso. Eles haviam participado de várias festas de aniversário minhas. Eu havia sido o xodózinho dos jantares dos encontros de casais durante todos aqueles anos. O tempo parece apagar certas lembranças...mas as gargalhadas do Zé Baiano naqueles jantares e os apertões nas bochechas que ele me dava são inesquecíveis.