26/05/2012

O Conto do Vigário

A história a seguir chega a ser tão previsível que é possível imaginar que isso jamais aconteceria, tamanha besteira. Para quem não sabe, nos "trejeitos linguísticos" de nossas vovós (como gosto de chamar), "cair no conto do Vigário" é ser enganado. Tal gíria idosa surgiu por conta do truque que especialistas em trambiques usavam, dizendo-se vigários (padres) para terem maior credibilidade com o enganado.

Pois bem, tal história ocorreu com o italianíssimo "falastrão" tio César, e chega a ser mais engraçada ainda se considerarmos que tal figura tinha fama de ser "o espertalhão da família". O causo chegou a sair até mesmo num jornal local da época, em uma coluna denominada "contos do vigário". Minha avó Myrian, fonte de tal relato, lembra-se do causo com detalhes apesar de seus insignificantes 6 anos de idade.

Tio César havia acabado de vender seu carro para um vigário de sua cidade, mas o tal padre afirmava que teriam que buscar o dinheiro do pagamento numa cidade vizinha. No dia combinado, tio César levantou cedo, e animado foi buscar o padre. Foram no caminho conversando sobre o "bom negócio" que tinham feito.

Não se sabe ao certo como foi, tampouco importa, o fato é que o esperto tio César chegou em casa horas depois, exausto e a pé; sendo recebido debaixo de risos dos familiares por ter sido enganado pelo falso-vigário.
Consta no jornal da época a seguinte nota: "levou o conto do vigário do próprio vigário".

24/05/2012

Fausto Pereira Garcez


(Clique nas fotos para ampliá-las!) Antes de meu avô-pai, que me criou e a quem tenho profunda admiração, fora também personagem importante na história esportiva de Taubaté. Contarei um pouco sobre o início de tudo, quando eu ainda nem pensava em existir. Pois bem, Fausto Pereira Garcez nasceu em 09 de maio de 1932, em Queluz, uma cidade localizada aos pés da Serra da Mantiqueira, no caminho de São Paulo - Rio de Janeiro.

Teve uma infância humilde ao lado de seus pais, o carteiro Cyro Carlos de Oliveira Garcez e sua mãe Adelaide, mais conhecida como "Dona (ou vovó - pelos netos) Filhinha"; e ao lado de seus sete irmãos Luiz, Silvio, Lúcio, Noel (Neco), Tereza (Nhe), Wanda e Sônia.

Em julho de 1932, ao estourar a Revolução Constitucionalista, meus bisavós, temendo um possível bombardeio, decidiram fugir da cidade a pé. Foi durante uma das noites que caminhavam que meu avô, ainda bebê, caiu no Rio Paraíba do Sul. Após o resgate conturbado seguiram viagem.

No começo de sua juventude, a família Garcez mudou-se para Taubaté, um pequeno município do Vale do Paraíba, interior de São paulo. Continuaram vivendo de forma humilde.
No documento abaixo Fausto Garcez, aos dezesseis anos, começa a engrenar na carreira esportiva.


Meu avô Fausto conheceu minha avó, Myrian, no auge de seus 21 anos, quando Myrian ainda tinha apenas 14 e frequentava o colégio de freiras Bom Conselho. Conheceram-se no "Taubaté Country Club" e namoraram por sete anos e meio.

Carreira de bancário:
Fausto iniciou sua carreira de bancário no Banco do Vale do Paraíba, em 1951.
Em 1955 Fausto passou no concurso da Caixa e foi trabalhar como escriturário no prédio da CBI, localizado na cidade de São Paulo (vale do Anhangabaú). Morou em uma pensão na Praça da República, onde dividia o quarto com dois completos desconhecidos. Chegava a dormir com o dinheiro no bolso para não ser roubado.
Posteriormente conseguiu a transferência para a Delegacia Regional da Caixa Econômica de Taubaté, na sessão de contabilidade.

Carreira de esportista:
Inicialmente Fausto tornou-se zagueiro de futebol de salão, participando de torneios e campeonatos quando ainda muito jovem. Em pouco tempo ficou conhecido como Fausto "boas maneiras" por sempre pedir desculpas ao esbarrar nos atacantes; o apelido foi encurtado para "Boas" logo depois.
Concomitantemente Fausto mantinha a carreira de jornalista esportivo do jornal "A Tribuna", de Taubaté; e cronista esportivo da Rádio Difusora de Taubaté. Nesse período foi eleito presidente da Associação dos Cronistas Esportivos de Taubaté. Há registros de um torneio de futebol amador, organizado pela Liga Municipal, que foi denominado "Torneio Fausto Pereira Garcez". Como jogador, chegou a atuar em campeonatos juvenis e amadores da cidade.



Jornal "A Tribuna" - Taubaté, sexta-feira, 10 de fevereiro de 1961





Em 1961, minha avó tinha 22 anos e meu avô 29, quando casaram-se na Catedral de Taubaté, conforme detalha a matéria publicada no principal jornal da cidade na época "A Tribuna", do qual meu avô era funcionário. O casamento também foi narrado na Rádio Difusora de Taubaté, por um colega de Fausto.


Matéria publicada no jornal "A Tribuna". Taubaté, domingo, 21 de maio de 1961. Detalha o casamento inteiro de meus avós, do tecido do vestido da noiva ao traje do noivo. Destaque para: "a encantadora Myrian" e "O noivo Fausto Pereira Garcez que é um gentleman, rapaz de fino trato..."


Esse segundo registro da matéria eterniza até mesmo a presença da vizinha-de-juventude de Myrian, a Rainha do Rock e irmã do produtor e cantor Tony Campello, Celly Campello. Destaque para as citações dos discursos de "o poeta Luiz Guerra Paixão" e  do cronista "Vavá".

Fausto e Myrian tiveram quatro filhos. Marcelo, nascido em 5 de novembro de 1961; Marcos, nascido em 31 de outubro de 1964; Marianne, nascida em 20 de maio de 1971; e minha mãe, Milene, nascida em 13 de março de 1973.


Fausto com a esposa Myrian e os quatro filhos.

Final de sua vida profissional:
No começo de 1964, com os dois filhos-homens ainda pequenos, foi convocado para prestar serviços em na cidade de São Paulo novamente, onde permaneceu na rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Dormia em um alojamento dentro de uma oficina mecânica, chamado "Sono curto". Haviam homens de todo o estado dividindo o mesmo alojamento. Fausto voltava nos finais de semana para Taubaté para ver a família.
Foi então nomeado "inspetor de agência" na Regional de Santos (sede da região). Passou a fazer inspeções do Vale da Ribeira até a Divisa do Paraná. Nesse período hospedava-se num hotel em frente à praia Zé Menino, no Canal 2. Sua rotina era sair de Taubaté todas as segundas-feiras às 6h da manhã e voltar `s sextas às 23h.
Foi então convocado a ser coordenador de inspeção na cidade de São Paulo. Nesse período viajava diariamente para São Paulo, "não tendo posado nem uma só noite em Sp.", como ele mesmo sempre ressalta.
Após toda essa batalha na carreira profissional, foi convidado ao cargo de Diretor de Orçamento da Caixa, mas optou pelo retorno a Taubaté, onde viveu sua última fase profissional ao lado da família, como chefe de contabilidade e gerente regional substituto.


"Corinthiano roxo", Fausto levou seus filhos ao jogo de 1977 na capital paulista, "quando Corinthians derrotou a equipe da Ponte Preta de Campinas, por 1x0, gol de Basílio, quebrando um jejum de 23 anos", segundo ele. Sempre de bom-humor, Fausto tornou-se um dos mais conhecidos fanáticos-brincalhões da cidade, e influenciou seus filhos e suas duas netas (eu e minha prima Maitê) em relação ao amor que sentem pelo time, que passa de geração em geração.

Após a aposentadoria passou a dedicar-se mais às tarefas diárias e aos filhos. Assim que nasci sua vida tomou outro ritmo, uma vez que eu (ainda bebê) e minha mãe, fomos morar em sua casa. Foi então pai uma quinta vez.


Eu ao sair da maternidade no colo de meu avô, com a roupinha do Corinthians.

Atualmente se dedica às netas e a todos que o cercam. Jamais houve ou haverá homem mais honesto e generoso. Seu caráter acabou ficando conhecido na cidade, e isso é a prova de que não estou dizendo somente porque ele é meu avô. Sempre procurando o bem-estar daqueles que estavam à sua volta, meu avô Fausto arranjou emprego para muitos e iniciou no mercado de trabalho diversas pessoas, que até hoje são gratas a ele.
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Abaixo, algumas matérias e fotos que hoje se tornaram documentos históricos e são a maior ligação que temos com o passado desse grande homem que é o meu avô. (clique nas fotos para ampliá-las.)


Fausto entrevistando o prefeito de Taubaté (setas). Ao seu lado direito, de terno e gravata, o primeiro técnico brasileiro a conquistar uma Copa do Mundo, Vicente Feola.





Fausto Garcez entrevistando o Pelé (Conterrâneo de minha avó Myrian), considerado por muitos o maior jogador da história do futebol, logo após a Copa do Mundo de 58. Jogo "Santos x Taubaté", 1958, Campo da Eletro - Taubaté/SP. 


Fausto entrevistando em campo o zagueiro do São Paulo/ Santos bicampeão mundial pela seleção brasileira em 58 e 62, Mauro Ramos.


1953. Seleção estudantil de Taubaté que venceu a seleção de Rio Claro por 8x1. Abaixo, o primeiro da esquerda para a direita, Fausto. Acima, o terceiro da esquerda para a direita, José Eli de Miranda, Zito, campeão mundial pelo Brasil em 1958; na época, estudante do Colégio Monteiro Lobato.



Fausto na Rádio Difusora de Taubaté. 



Fausto e a namorada Myrian Sisti.

23/05/2012

Sobre a morte de Esther Cavallari

Já havia constatado que Esther Cavallari faleceu em 26 de maio de 1961, por derrame cerebral após ter vivido dois anos em uma cadeira de rodas. E que por pouco, minha avó Myrian não conseguiu se despedir da admirada avó italiana.
Myrian havia acabado de se casar com Fausto Garcez e voltando da lua de mel passaria na casa da avó, que não pôde comparecer ao casamento pois já estava muito debilitada.
Como estava muito cansada da viagem, ela e meu avô voltaram direto para Taubaté e combinaram de fazer a visita tão esperada na semana seguinte. Sua avó Esther estava esperando a recém-casada ansiosamente e mostrou-se muito chateada por a neta não ter ido dar o abraço naquela semana, mas conformou-se pois a veria alguns dias depois.
Na manhã do dia 26, Esther acordou e foi à capela de Nossa Senhora. No período da tarde estavam 8 de seus filhos reunidos, menos César, o filho que, segundo relatos, era com o qual ela mais se preocupava e queria ajudar.
Minha bisavó Zina (também filha de Esther) contou que durante toda a tarde ela não tirou os olhos da porta a espera de seu filho César.
Esther faleceu de um derrame, ou trombose (não se sabe ao certo), logo após a chegada de seu filho César, mas ainda sem ver a neta querida Myrian Paixão Garcez.


Esther com filhas e netas. (Myrian é a criança do meio)



20/05/2012

Cora Emília

Não sei se a história de hoje é um fato ou se pode ser classificada como uma simples "lembrança". Eu diria que é muito mais, é uma prova de que, quando o sentimento é verdadeiro, ele perdura anos a fio. Mesmo que algo seja concretizado durante nossa fase mais efêmera e leviano, se esse "algo" vem do coração, pode mesmo durar para sempre.

Minha avó Myrian tinha uma amiguinha em sua terra natal, a cidade de Três Corações, no interior de Minas Gerais. A menininha se chamava Cora Emília e ambas tinham por volta de seus 7 ou 8 anos de idade quando minha avó foi embora de Minas. Não se sabe ao certo o sobrenome de Cora, levianamente, minha avó supõe que seja "Almeida" ou "de Almeida". É perfeitamente aceitável que não se lembre, qualquer um de nós se esqueceria até do fato, talvez. Por isso será impossível localizá-la ou qualquer membro de sua família para contar essa história bonitinha. Minha avó afirma até que existe uma foto das duas pequeninas gargalhando no canteiro da casa de uma delas. Mas revirei as latas de fotos antigas que temos e não achei nada...

Era a última noite de minha avó em Três Corações e, como de praxe, as duas brincaram na rua a tarde inteira. À noite, estavam na praça central da cidade perto de suas respectivas casas quando o pai de minha avó chamou-a para entrar. Era tarde e viajariam logo cedo na manhã seguinte. As duas crianças, conscientes de que nunca mais se veriam, fizeram um trato. Naquele momento tocava nos alto-falantes da praça a música "Frenesi" (Linda Ronstadt); e as duas combinaram de que, daquele momento até o fim de suas vidas, quando ouvissem a tal canção, se lembrariam uma da outra.

Independentemente da letra ou da amizade que acabou ali e talvez Cora nem guarde em suas melhores lembranças, minha avó até hoje, com 73 anos de vida, cada vez que escuta a canção ainda se lembra da amiguinha que deixou em Três Corações.

A canção relacionada à tal fato pode ser ouvida na lista de músicas do blog, lá embaixo, no final da página. "Frenesi" é a canção 14.

13/05/2012

A arte de fazer inimigos

Havia um homem que vendia livros bem na porta da faculdade que minha avó lecionava. Certa vez, minha avó passando por ali, parou e começou a analisá-los. Ao se deparar com um livro de título “A arte de fazer inimigos” comentou algo como “- Poxa, que interessante esse título”... O homem, puxando assunto, contou que já havia folheado, e uma das táticas era confundir o nome da pessoa. “É mesmo seu Renato?”, perguntou minha avó. “É, mas meu nome é Roberto.”, foi a resposta à pergunta infeliz.